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segunda-feira, 26 de março de 2012

Nosso habitat

A maior responsabilidade, porém, que os nossos arquitetos e planejadores devem assumir, é a manutenção e o desenvolvimento de nosso ambiente, de nosso habitat. O homem encontra-se em relação recípocra com a natureza, mas o seu poder de modificar o quadro natural da superfície da terra tornou-se tão grande, que de uma bênção poderá converter-se em uma maldição. Como poderemos aceitar que um belo trato de paisagem após outro, devido a um simples processo de construção, seja destruído por tratores, aplanado e despojado de toda a sua vegetação, para que depois empresários o cubram de pequenas casas às quais se associam incontáveis postes telegráfos em lugar das árvores abatidas sem qualquer cuidado. A vegetação original e a irregularidade natural do terreno - ou por desatenção ou por interesses comerciais, ou simplesmente por irreflexão - são destruídos porque o empreiteiro de obras comum encara a terra como mercadoria comercial e sente-se autorizado a extrair o máximo proveito dela. Enquanto não aprendermos a amar a terra, a respeitá-la como um bem a nós confiado, essa destruição prosseguirá.

A paisagem que nos cerca é uma grande composição que consiste de trechos de espaço livre e de corpos que o limitam. Tais corpos podem ser prédios, pontes, árvores ou colinas. Toda configuração visível, seja ela natural ou construída pela mão humana, conta no efeito do conjunto dessa grande composição. Mesmo a mais despretensiosa construção utilitária, uma estrada ou uma ponte, é importante para a harmonia do efeito visual do conjunto. E quem mais senão o arquiteto ou urbanista está destinado a ser o guardião responsável pos nosso mais precioso patrimônio, a nossa paisagem natural, cuja beleza e harmonia é fonte de inspiração e satisfação para a alma? Na pressa e burburinho em que deixamos tanger a nossa vida, o que precisamos com mais urgência é uma fonte onipresente de regeneração e esta só pode provir da própria natureza. Sob as árvores, o homem da cidade pode esquecer seus cuidados e entregar-se à bênção de uma pausa recriadora.

O arquiteto ou urbanista, digno desse nome, deve dispor de visão e fantasia a fim de chegar a uma verdadeira síntese para a cidade do futuro cuja concretização eu gostaria de chamar 'arquitetura total'. Para alcançar semelhante altitude de trabalho, é mister que tenha a paixão do amante e a boa vontade respeitosa de cooperar com outrem. Pois, por mais notável que seja, ele não pode levar a cabo sozinho esta tarefa. A unidade da expressão arquitetonica regional, que todos nós tanto desejamos, dependerá, em grande escala, na minha opinião, do desenvolvimento do trabalho criativo do grupo.

Depois que cessou por fim nossa caça doentia aos 'estilos', nossos hábitos e princípios começam a tomar feições uniformes, que refletem a verdadeira essência do século XX. Começamos a conceber que o design de nosso mundo-ambiente não depende da aplicação de uma série de fórmulas estéticas, preestabelecidas, e sim de um processo contínuo de crescimento interior, que recria constantemente a verdade ao serviço da humanidade.

Walter Gropius
Bauhaus: Nova Arquitetura
Ed. Perspectiva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Existe uma ciência do Design?

Plano de Educação
[...] a criação artística haure sua vida da tensão que surge constantemente do efeito recípocro entre as forças conscientes e inconscientes de nossa existência. Este conhecimento tornou-se para mim um fio de prumo em questões de educação artística. Pois como o intuitivo-inconsciente se revela em cada um de nós sob forma indívidual e singular, toda tentativa de um educador de projetar suas próprias percepções sensoriais em seus alunos é inútil. Leva apenas à imitação dependente. O ensino efetivo deve ser construído com base em fatos objetivos, acessíveis a todos nós do mesmo modo. Mas o estudo da visão que nos ensina a diferenciar o que é real do que é ilusão, exige uma vitalidade e uma espontaneidade espirituais que têm de permanecer imutáveis em face do amontoado arbitrário de fragmentos desconexos de saber. Santo Tomás de Aquino, o grande místico da Idade Média, disse certa vez: 'Devo esvaziar minha alma para que Deus possa entrar'. Esse estado de vácuo espiritual prepara para a concepção criativa, para a Graça. Mas o atual predomínio do saber livresco não favorece por certo semelhante estado. A tarefa inicial do educador deveria consistir em livrar o aluno do entorpecimento intelectual e em encorajá-lo a dar mais expansão à sua sensação inconsciente. Ele deve, por assim dizer, tentar reconstituir o estado de receptividade despreconcebida da criança e então guiá-lo; destruir o que ainda há de preconceitos e reincidências nas propensões imitativas, para que o aluno possa alcançar, por meio de observação própria e tentativas práticas, o conhecimento de uma regularidade objetiva da expressão.

Se o design deve ser uma linguagem visual específica para a transmissão de sensações inconscientes, o conhecimento dos fatos objetivos no terreno da escala, forma e cor, assim como o domínio da gramática da composição, constituem seus pressupostos indispensáveis. Só então pode o artista levar a sua mensagem à expressão por meios manifestos, que unem mais as pessoas do que palavras. Quanto mais essa linguagem óptica se espalhar, tanto melhor será compreendida a obra de arte. A arte surge da graça da súbita idéia pessoal. Ela não é ensinável. O ensinável consistem em demonstrar a influência que luz, espaço, proporção, forma e cor exercem sobre a psique humana; expressões vagas como ' a atmosfera de uma construção' ou ' a comodidade de uma sala' deveriam ser especificadas. Todo principiante precisa aprender primeiro a ver. Precisa conhecer o efeito das ilusões ópticas da influência psicológica de formas, cores e texturas, de contrastes e de direção, tensão e repouso; e precisa compreender o significado daquilo que chamamos escala humana.

Walter Gropius
Bauhaus: Nova Arquitetura
Ed. Perspectiva

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Formação vocacional do Design

Quando o jovem deixa a escola com o plano de tornar-se arquiteto ou designer chega à encruzilhada onde deve decidir-se: será melhor encetar o longo caminho através da escola superior ou dirigir-se imediatamente à formação profissional? Aqui precisa de conselhos bem ponderados. Será que seu caráter, seu talento, sua visão do mundo e sua perseverança são bastante fortes e promissores para que possa tornar-se um livre arquiteto, ou deveria contentar-se com a instrução necessária para o desenhista e assistentes? A fim de reduzir o número de decisões erradas que são adotadas nesse sentido, todos os estudantes deveriam submeter-se a um teste vocacional com respeito às suas aptidões criativas e dotes de imaginação. A todos os estudantes que tenham talento artístico e que tenham passado com êxito por essa prova no início de sua educação - bem como os que hajam principado por um curso técnico - dever-se-ia possibilitar a formação em universidades e escolas superiores de design.

Walter Gropius
Bauhaus: A nova arquitetura
Ed. Perspectiva

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O que entendemos por "Estilo"?

Acredito que o impulso irreprimível dos críticos em prover os movimentos contemporâneos de etiquetas estilísticas aumentou ainda mais a tão difundida falta de compreensão para com as forças dinâmicas de inovação que atuam na arquitetura e no planejamento de hoje. Nosso objetivo era o de introduzir uma nova posição, um novo método, não um novo estilo. Um 'estilo' é a forma de expressão constantemente repetida de um período, cujo fundamento, culturalmente saturado, permite a criação de um 'denominador comum'. A tentativa de tentar classificar arte e arquitetura, e com isso reprimi-las, por assim dizer, enquanto ainda se acham em formação, sufoca as forças criativas em lugar de estimulá-las. Nossa época nos obriga a repensar toda a nossa forma de vida; a antiga sucumbiu sob o impacto da máquina, a nova ainda está em formação. Nesta situação, depende de nós desenvolvermos a capacidade para um crescimento flexível, que seja adaptável às condições de vida em mudança, em vez de perseguirmos motivos formalísticos de 'estilo'.

E como pode ser enganoso este tipo de terminologia apressado! Basta analisar mais de perto a infeliz expressão 'Estilo Internacional'. Em primeiro lugar, não se trata aqui de um 'estilo', pois tudo ainda se acha em desenvolvimento, em segundo lugar a palavra 'internacional' não corresponde, pois a tendência desse movimento é exatamente a de colher seus elementos formais em condições regionais derivadas do clima, da paisagem, dos costumes dos habitantes, sem cair, no entanto, em um 'estilo pátrio' sentimental.

Na minha opinião, 'estilos' só deveriam ser determinados pelo historiador com respeito ao passado. Não possuímos no presente o necessário distanciamento para medir os fatos objetivamente. A vaidade humana e os ciúmes turvam a visão. Por que não deixamos para o futuro historiador da arte a tarefa de esclarecer a história do desenvolvimento da arquitetura atual, enquanto nós nos lançamos ao trabalho de fazê-la crescer primeiro? Estou certo de que em uma época na qual os espíritos de liderança tentam ver os problemas humanos universais como inseparavelmente ligados uns aos outros, todo preconceito chauvinista com todo respeito à participação nesse desenvolvimento só pode ter efeito restritivo. Por que, então, quebrar a cabeça com problemas como o de saber quem influenciou quem, se na verdade se trata apenas de saber se os resultados melhoraram ou não a vida? De qualquer forma, somos mais influenciados uns pelos outros, devido ao rápido progresso dos meios de comunicação e de intercâmbio, do que os arquitetos dos séculos passados. Deveríamos saudar esse fato, pois ele enriquece e promove o desenvolvimento de uma base comum de entendimento que nos falta. Por isso, sempre tentei estimular meus alunos no sentido de se deixarem influenciar pelas idéias de outros, enquanto se sentissem capazes de aceitá-las interiormente, para depois enquadrá-las em um contexto que correspondesse às suas próprias concepções.

Walter Gropius
Bauhaus: Nova Arquitetura (p132-133)
Ed. Perspectiva