À primeira vista, pode parecer estranho classificar entre os
estilos históricos um movimento que acima de tudo foi uma pesquisa basicamente
inovadora e livre, uma tentativa de encontrar um estilo que realmente
pertencesse à sua época, e que, consequentemente, foi uma ruptura com o
passado, uma reação contra o ecletismo então predominante. É certo que nele
pode-se encontrar motivos decorativos (abundância da flora naturalista, linhas
que ondulam como chamas) que também pertencem ao repertório da arte gótica, ou
traços em comum com o barroco (amor pela curva, pelo movimento, pela profusão
de ornamentos); mas o parentesco de temas ou tendências é totalmente
superficial e mais aparente do que real; não se trata jamais de reminiscências,
mas sim de uma interpretação fundamentalmente nova, sem qualquer vínculo
profundo com o que foi realizado anteriormente. Mas o que é verdadeiro para a
Europa, berço do art nouveau, nem sempre brasileiro é válido quando se
muda de hemisfério e se focaliza o movimento dentro de seu contexto brasileiro.
No velho continente, o art nouveau foi uma tentativa de renovação e de síntese
das artes decorativas; que embora efêmero e tendo durado no máximo dezena de
anos, tinha raízes profundas na realidade à qual estava vinculada e correspondia
a condições peculiares de sua época, tentando solucionar (soluções estas às
vezes contraditórias) o aviltamento que ocorria em determinados setores da
arte, devido ao advento da era industrial. No Brasil, pelo contrário,
desapareceu totalmente o equilíbrio entre o aspecto técnico e o aspecto formal
da art nouveau era vista como a última moda em matéria de decoração, que era de
bom tom imitar, na medida em que fazia furor nos países tradicionalmente de
grande prestígio econômico e cultural. Assim, trata-se mais uma vez de uma
mentalidade muito semelhante àquela que tornou possível o sucesso do ecletismo:
era novamente uma arte exótica, importada por europeus e apreciada enquanto tal
por uma aristocracia rural e uma grande burguesia que vivia com os olhos na
Europa.
Nessas condições, é fácil compreender por que o art nouveau desenvolveu-se
principalmente em São Paulo, local onde vieram a conjugar-se uma série de
fatores favoráveis. A ríquissima clientela dos plantadores de café, cujas frequentes
viagens e leitura de revistas gerais ou especializadas mantinham-na em último
contato com a Europa, encontrou aí arquitetos, artistas e artesãos emigrados
diretamente dos países onde esse estilo alcançou grande força. Além do mais, trata-se
indiscutivelmente da cidade brasileira mais capacitada a apreender e partilhar
o entusiasmo que se tinha apoderado da Europa no começo do século XX, e a fé no
futuro da qual o art nouveau era uma manifestação: embora a industrialização em
São Paulo fosse mais uma promessa do que uma realidade concreta, o
desenvolvimento de uma importante rede ferroviária contribuiu para a
transformação da mentalidade, ao mesmo tempo em que o crescimento rápido da
cidade justificava o entusiasmo e as esperanças da população.
Mas o art nouveau não foi um fenômeno simples, fácil de ser definido.
Principalmente no campo da arquitetura, o termo não está isento de equívocos,
não escapa a uma certa ambiguidade já mencionada; frequentemente engloba sob
certos traços comuns tendências variadas e por vezes contraditórias. De fato,
existiram vários tipos de arquitetura modern style, que correspondiam aos
centros regionais marcados pela atividade de uma ou mais personalidades
particularmente fortes. Essa situação não podia deixar de se repetir em São
Paulo, cidade onde o art nouveau foi obra de arquitetos vindos de lugares
distintos.
A influência da Sezession vienense é perceptível em Karl Ekman, embora pareça
ter sido principalmente livresca: nascido em 1866 na Suécia, estudou na
Escandinávia, indo depois para a América, onde trabalhou para diversas firmas
em Nova York e na Argentina, antes de se estabelecer por conta própria no
Brasil. Depois de uma rápida estadia no Rio de Janeiro, fixou-se em São Paulo,
onde construiu uma série de edifícios importantes: a Escola Álvares Penteado, o
Teatro São José, a Maternidade São Paulo e várias residências, das quais se
destacaram as da família Álvares Penteado (VIla Penteado e Vila Antonieta).
Quase todos, hoje, desapareceram ou foram de uma ou de outra forma mutilada. Os
exteriores eram sóbrios e o desenho das fachadas era fruto de um projeto
geométrico típico da escola austríaca de Otto Wagner: paredes lisas, vazadas
por estreitas janelas retangulares, dispostas próximas umas às outras, afim de
equilibrar por sua acentuada verticalidade a horizontalidade do volume do
edifício, predominância da linha reta, valorizando o emprego de arcos e curvas
em pontos estratégicos, decoração floral ou linear limitada a alguns motivos
bem delicados, mas dispostas de modo a destacar sua importância. Podia-se
encontrar essa mesma influência austríaca em certas obras de Max Hehl, mas já
não era tão pura: com efeito, o gótico modernizado de seu Colégio de Santo
Agostinho não passava de uma miscelânea de algumas características Sezession
somadas a um conjunto onde predominavam formas e ornamentação góticas.
Contudo, a arquitetura de Ekman não se resumiu nesse aspecto externo Sezession,
geralmente adotado. Pelo contrário, foi no tratamento dos interiores de suas
casas que obteve os melhores resultados e impôs sua marca pessoal. Destes,
somente um sobreviveu até os dias de hoje, por milagre o mais importante, em
termos históricos e estéticos - a Vila Penteado, construída em 1902. Essa
residência foi de fato o primeiro edifício art nouveau de São Paulo. Seu proprietário,
o Conde Álvares Penteado, uma das personalidades paulistas da época, ao mesmo
tempo latifundiado e industrial, era grande conhecedor da vida europeia e tinha
um espírito esclarecido voltado para o futuro; foi ele quem encomendou a Ekman
uma casa estilo art nouveau, lançando uma moda que se espalhou como rastilho de
pólvora.
O elemento básico da composição é o vestíbulo, que se ocupa todo o corpo
central, em comprimento, largura e altura; não é um mero ponto de passagem, mas
a peça essencial, onde se concentra, todos os efeitos estéticos, tanto
decorativos, quanto espaciais. Podemos encontrar ali uma aplicação
característica dos princípios de Victor Horta, cujas grandes realizações Ekman
certamente conhecia, seja pessoalmente, ou por meio de revistas especializadas.
A liberdade da planta e da distribuição dos diferentes níveis, o efeito visual
obtido pelas escadarias, tribunas e aberturas de tipo, forma e dimensões
variadas que dão para esse vestíbulo, a interpretação de espaços daí
resultante, tanto vertical, quanto horizontalmente, derivam certamente de
soluções e concepções adotadas por Horta nos edifícios construídos em Bruxelas
alguns anos antes. Por seu lado, a decoração predominantemente com curvas e
arabescos resultantes mais do jogo abstrato da geometria do que da imitação da
natureza aproxima-se muito do espírito de Henry Van de Velde, outra grande
personalidade artística da Bélgica, nessa época. Ekman, portanto, estava
certamente a par das realizações européias e das modificações no gosto,
ocorridas nas grandes capitais. Sabia inspirar-se nelas, mas não era um
imitador servil: a feliz síntese que conseguiu efetuar entre a rígida simetria
do estilo Sezession, a audácia e a liberdade de invenção dos mestres belgas é
uma prova da segurança de sua escolha, de seu talento para a assimilação, e de
sua criatividade. Contudo, sua originalidade deve-se principalmente à
habilidade com que transformou a madeira no elemento essencial de seus interiores.
Foi desse material que ele extraiu quase todos os seus efeitos decorativos,
quer pelo tratamento ornamental que lhe dava, quer pelo jogo de contrastes
obtido; de fato, soube manipular com destreza o contraste entre a cor escura da
madeira envernizada e a claridade uniforme das paredes e usar a contraluz para
realçar o desenho das balaustradas, cujo perfil destacava-se nitidamente de um
fundo luminoso. Para Ekman, entretanto, a madeira era muito mais do que simples
meio de decoração: explorou ao máximo não só suas qualidades estéticas, como
também suas possibilidades funcionais e construtivas; isto, pode ser comprovado
pela escadaria da Vila Penteado ou pelo teto da casa do Dr. Kowarick, já
demolida. Dessa maneira, criou obras de uma unidade e uma coerência perfeitas,
onde a madeira assumia um papel semelhante ao ferro fundido na arquitetura de
Horta. Isto pode ter sido uma concessão às condições ainda bastante artesanais
do país, mas é pouco provável, pois havia na época facilidade de importar tudo
o que fosse necessário a um custo relativamente baixo: na própria Vila
Penteado, lareiras, lustres, objetos e estatuetas de metal e até mesmo a grande
fonte do jardim vieram diretamente da Europa. Estruturas, vigas metálicas,
colunas de ferro forjado, prontas para montar na obra, grades, corrimões de
escada, etc., tudo entrava livremente, como já vimos. Não foi por necessidade,
portanto, que Ekman decidiu fazer art nouveau utilizando a madeira como
elemento fundamental. Pode ser que tenha sido encorajado pela abundância e
beleza das espécies encontradas no Brasil. mas sua firme tomada de posição
certamente decorreu da experiência secular que os escandinavos tiveram com esse
material, habituados que estavam a viver em meio a imensas florestas: o amor
atávico daí resultante faz com que a madeira ainda hoje seja um dos meios de
expressão preferidos pelos povos nórdicos.
O sucesso da Vila Penteado foi imediato. Estava lançado o art nouveau, e em
alguns anos os bairros novos (Santa Cecília, Campos Elísios, Higienópolis, Vila
Buarque, Bela Vista) estavam cobertos de belas residências ou de simples casas
de aluguel que traziam a marca indelével - embora muitas vezes superfícial -
desse estilo. Quase todas foram demolidas, sendo substituídas por enormes
prédios de apartamentos; o fato é lamentável, mas não se deve esquecer que a
maioria dessas construções estava longe de ser obra-prima e faltava-lhe
autenticidade. Além de Ekman, somente um outro arquiteto, parece ter conseguido
se impor de maneira indiscutível: Victor Dubugras.
Nascido em La Fleche (Sarthe, na França) em 1868 e falecido no Rio de Janeiro,
em 1933, ainda criança emigra com a família para a Argentina. Estudou
arquitetura em Buenos Aires e trabalhou com o italiano Tamborini, mas cansado
da situação instável desse país, instala-se em São Paulo em 1891. Durante algum
tempo, foi um dos colaboradores de Ramos de Azevedo, sendo admitido em 1894
como professor de desenho arquitetônico na Escola Politécnica. Inicialmente
partidário convicto dos estilos medievais, chegou ao art nouveau em 1902, quando
expôs seu projeto para a casa de Flávio Uchôa, construída no ano seguinte. Como
já vimos, essa casa ainda era uma mistura bastante curiosa de neogótico,
predominante na decoração externa em relevo, e de pitoresco, resultante da
justaposição arbitrária de elementos tomados de empréstimos aos estilos mais
diversos. O art nouveau não era evidente na fachada pricípal; estava relegado à
entrada lateral, coroada por uma marquise de cobre pontilhada de lâmpadas
elétricas. Era mais visível no interior, onde o vestíbulo em galeria ocupava
dois andares e era decorado com pinturas inspiradas pela flora brasileira,
executada a partir de esboços do próprio arquiteto. Parece certo que Dubugras
empregou ali, algumas lições tiradas de Ekman na Vila Penteado, construída no mesmo
ano em que fez seu projeto. A Casa Uchôa foi um edifício de transição na obra
de Dubugras: o exterior, ainda impregnado de ecletismo e de reminiscências de
outros estilos históricos, era uma continuação lógica da linha que vinha
seguindo; em compensação, a liberdade das soluções adotadas na disposição
interna, tanto na planta, quanto na ornamentação, prenunciava a orientação
muito diversa que o arquiteto, bruscamente convertido ao art nouveau, passou a
ter logo depois.
Com efeito, o ano de 1905 marca uma reviravolta no seu estilo. É claro que a
ruptura não foi total. Os motivos decorativos modern style, utilizados a partir
dessa data, a princípio assemelhavam-se claramente ao repertório antes tomado
de empréstimo à arte gótica: flora naturalista, arcos trilobados, rede de
curvas, entrelaçados lembrando um pouco o estilo flamboyant, principalmente
quando eram empregadas para ornamentar as balaustradas ou eram esculpidas na
pedra para formar os peitoris das janelas, como na casa de Numa de Oliveira.
Rapidamente esses motivos tornaram-se mais abstratos e também mais
característicos do art nouveau, onde quer que Dubugras empregasse o ferro:
grades, varandas, caixilhos de algumas janelas. A cada ano, seus projetos
tornavam-se, menos rígidos, em planta e em volume, os traçados arredondados
ficaram mais frequentes, as varandas passaram a assumir uma importância
fundamental na composição, chegando mesmo a contornar quase inteiramente a
casa, era o primeiro passo no sentido da etapa seguinte da carreira do arquiteto:
o estilo neocolonial. É fácil acompanhar essa evolução através das fotografias
publicadas por Flávio Motta: constata-se uma crescente libertação das formas
romanas e góticas, mas também uma certa depuração daquilo que o art nouveau
tinha de gratuito, com procura de soluções arquitetônicas, ao mesmo tempo
estética e funcionais, baseados no emprego correto dos materiais de construção;
originalmente uma das preocupações essenciais do movimento europeu, e que
Dubugras foi dos poucos a preservar no Brasil.
O Teatro Municipal do Rio de Janeiro teria sido sem dúvida, se houvesse sido
construído, sua obra-prima e forneceria a melhor síntese de suas sucessivas
tendências. O projeto de Dubugras obteve apenas o segundo lugar no concurso
realizado em 1904, sendo preferido pelo projeto do engenheiro Francisco
Oliveira Passos. Contudo, o projeto de Dubugras era muito mais original. Tinha
respeitado a solução clássica, marcando com volumes distintos as três partes
essenciais de um teatro: palco, sala de espetáculo, foyer. Mas apenas a planta
do palco podia ser inscrita num retângulo, enquanto que, nas demais,
predominava em termos absolutos, a elipse (longitudinal e truncada no caso da
sala, transversal e completa no caso do foyer). Essa forma incomum era
perfeitamente invisível do exterior, embora seu movimento fosse atenuado pela
aplicação de galerias superpostas. O exterior era uma curiosa mistura de formas
inovadoras e de decoração tradicional, esta tomada de empréstimo tanto à arte
romana italiana (galeria de arcadas finas em arco-pleno colocadas imediatamente
abaixo do teto), quanto à deutorobizantina (pequenas torres flanqueando a
fachada) e à gótica ( arcos trilobados das balaustradas e da galeria lateral no
térreo); é certo que o conjunto teria resultado pesado e heterogêneo. Em
compensação, no interior não se repetia a mesma falta de unidade; o vestíbulo
era o toque de mestre: via-se o amor de Dubugras pelas galerias em arcadas que
se superpunham em três fileiras, mas desta vez em qualquer reminiscência histórica;
o movimento das escadarias, o desenho sinuoso da abóbada, a decoração floral
estilizada do piso, contrastando com as linhas geométricas, porém dinâmicas,
dos corrimões e balaustradas de ferro forjado, finalmente a original idéia de
agrupar as luminárias em torno das colunas como se fossem capitéis, todos esses
elementos combinados teriam criado um conjunto sem precedentes, homogêneo,
moderno, muito avançado para a época.
Dubugras aliás não foi bem-sucedido nos seus estudos para edifícios oficiais,
pois seu projeto para o Congresso Federal, um pouco posterior ao teatro,
tampouco foi construído. De boa concepção técnica e funcional, não apresenta o
mesmo interesse na medida em que seu autor não pôde ou não quis neste caso se
abster de utilizar um vocabulário decorativo clássico que visivelmente não o
atraía. O resultado, maciço e pesado, não teria sido feliz - é o mínimo que se
pode dizer.
O mesmo não aconteceu com a estação de Mayrink, primeiro edifício no Brasil construído
totalmente em concreto armado, onde irrompe a originalidade das concepções
totalmente em concreto armado, onde irrompe a originalidade das concepções de
Dubugras, muito mais avançadas do que as de seus colegas, tanto do ponto de
vista técnico, quanto estético. A escolha do concreto armado, neste caso
específico, oferecia uma série de vantagens essenciais: tornava possível a
obtenção de um bloco único, indeformável e capaz de resistir às trepidações,
distribuindo o peso uniformemente no terreno, aliás de péssima qualidade; além
disso, era um processo barato; tanto mais que a estrutura foi feita com trilhos
usados. Mas Dubugras não era apenas um engenheiro competente, era também um
arquiteto que jamais esquecia as preocupações estéticas; sob esse ponto de
vista, dedicou-se a uma verdadeira reabilitação do concreto armado, até então
desprezado e cuidadosamente dissimulado quando empregado. A estação, à qual se
tem acesso através de uma passagem subterrânea, está situada entre linhas das
duas companhias ferroviárias que a utilizam, o que constitui uma solução
prática para os viajantes que têm de fazer baldeação; assim, ela não tem
fachada frontal e posterior e pôde ser concebida sobre uma planta absolutamente
simétrica: corpo retangular iluminado por grandes vidraças, flanqueado por dois
corpos secundários em semicírculo que abrigam a parte de serviços. A mesma
simplicidade da planta encontra-se na elevação. Mas foram acrescentadas quatro
torres nos cantos do corpo central, com finalidade puramente estética (embora
sejam utilizados pelo telégrafo); são coroadas por plataformas em balanço,
muito salientes, sustentadas por montantes de ferro forjado que, junto com a
marquise que circunda o edifício lembram a afeição que Dubugras tinha pelo art
nouveau. O conjunto prenuncia de modo nítido a arquitetura funcional, mas
denota um gosto acentuado pelas preocupações formais, que não foram esquecidas
no jogo hábil de curvas e de linhas retas, na justaposição de volumes simples,
pressentia-se o caminho que mais tarde tomaria a arquitetura brasileira. Era cedo
demais, porém, para que esse caminho fosse trilhado firmemente e o próprio
Dubugras logo o abandonou para se lançar na aventura neocolonial.
É muito mais fácil detectar em Dubugras, do que em Ekman, as influências que
atuaram nesse período art nouveau de sua carreira. Embora nascido na França,
passou toda sua vida na América do Sul; sua formação portanto, apesar de
européia, não foi direta, mas sim transmitida de segunda mão por intermédio de
arquitetos emigrados, como o italiano Tamburini. Daí um certo atraso em sua
evolução, compensado pela necessidade de um esforço maior para se manter
atualizado e de um aprofundamento mais pessoal nos problemas arquitetônicos e
estilísticos. Não há duvida de que Dubugras possuía grande cultura arqueológica
e técnica; todos os seus trabalhos o comprovam. É evidente que ele mantinha
contínuo contato com a Europa através de revistas especializadas de arte ou de
caráter científico, conservando sempre um equilíbrio entre o aspecto formal e o aspecto construtivo
propriamente dito; de fato, desenvolveu sempre esses dois aspectos,
inclinando-se ora para um, ora para o outro. Dadas essas preocupações
fundamentais, as realizações que mais despertaram seu interesse foram as dos
belgas Horta e Van de Velde e talvez as do escocês Mackintoch, mas é difícil
encontrar nele uma influência decisiva seja de qual mestre for. Aliás, ele
jamais foi tão longe no art nouveau quanto seus colegas europeus e só raras
vezes se desembaraçou das imposições dos estilos históricos, sem dúvida alguma
por causa do ambiente que o cercava no Brasil e da incompreensão que teria
acompanhado toda tentativa mais audaciosa de se libertar desse contexto. Por
conseguinte, a diversidade da obra de Dubugras, passando do neo-romano e do
neogótico ao art nouveau e mais tarde ao neocolonial, é mais aparente do que
real; é possível identificar-se nela uma grande continuidade e uma lógica
interna que justificam o parentesco, sensível apesar de tudo, entre obras
pertencentes a estilos tão diversos.
Comparados a Ekman e Dubugras, os arquitetos italianos que trabalharam em São
Paulo no estilo art nouveau fazem uma triste figura. De fato, contentaram em
aplicar às suas construções uma decoração naturalista, que não lembra nem de
longe o vigor floreale de seu país de origem. Essa posição retrógrada é muito
curiosa, já que, no campo das artes aplicadas, foram os italianos, sob a
direção de Luigi Scattolini, que tiveram papel de destaque no Liceu de Artes e
Ofícios; isto pode certamente ser explicado, pelas razões psicológicas já
mencionadas e pelo controle rígido de Ramos de Azevedo, pouco propenso a
permitir que seus colegas se afastassem do vocabulário arquitetônico clássico,
mas que em matéria de ornamentação era muito mais tolerante. Assim, nem
Dominiziano Rossi, nem Micheli, nem Chiappori, nem mais tarde, Bianchi, podem
ser considerados por suas realizações como adeptos fervorosos do art nouveau;
aderiram por vez à moda da época e conservaram ainda por muito tempo
(principalmente o último) um gosto acentuado pela decoração floral, mas sua
arquitetura inspirou-se mais nos modelos da Renascença do que nas construções
realizadas na Europa no começo do século.
No Rio de Janeiro, o art nouveau não se desenvolveu tanto quanto em São Paulo.
Segundo Lúcio Costa, um dos arquitetos mais significativos desse movimento foi
Silva Costa, que construiu várias casas na Praia de Copacabana; contudo, não se
pode formular qualquer juízo sobre elas, já que desapareceram sem deixar
vestígios. Em compensação, subsistiram algumas obras do italiano Virzi, outro
grande nome do art nouveau carioca; são construções bem curiosas, onde
características do modern style misturam-se a reminiscências históricas. A casa
situada na Rua da Glória, construída para o laboratório 'Elixir de Nogueira',
possivelmente terminada em 1916, tem a entrada flanqueada por potentes atlantes
barrocos, exemplo característico de uma decoração sobrecarregada. Mais
interessante á a casa situada no mesmo bairro, na Praia do Russel nº 734
(antigo nº 172), que sem dúvida alguma logo irá cair sob a picareta dos
demolidores. Como a anterior, é uma habitação cujo traço dominante é a
verticalidade; a inspiração medieval é claramente visível nessa verdadeira
torre que lembra as soluções adotadas em certas cidades italianas; o coroamento
em terraço, coberto por um telhado sustentado por finos pilares de madeira
geminados e assentados sobre suportes de pedra muito salientes, tem um ar de
fortificação de opereta que não é fruto do acaso; as arcadas que contornam três
lados do minúsculo pátio, como se fosse um pequeno claustro, a abundância de
arcos, as colunas geminadas encimadas por capitéis, os vários ornatos em
relevo, o volume saliente do segundo andar do edifício recuado, e vários outros
detalhes, também contribuem para uma aproximação com a arquitetura da Idade
Média. Por outro lado, as formas originais, estranhas e não raro irregulares,
adotadas principalmente no traçado dos arcos, a fantasia total que reinou na
justaposição e superposição de volumes, a abundância de grades e balcões de ferro
forjado onde se destaca o jogo linear das diagonais e das volutas, pertencem ao
espírito e ao vocabulário do art nouveau. A síntese é feliz e lembra um pouco a
obra do catalão Gaudi, que também tinha partido de uma inspiração de origem
medieval para chegar a criações totalmente inéditas. Naturalmente, Virzi não
atingiu a força nem a audácia característica das realizações de Gaudi, mas é
incontestável que ele foi, no Brasil, um digno representante de uma tendência
muito pouco difundida do modern style, na qual a ênfase era dada aos problemas
formais.
O art nouveau parece ter se prolongado por muito tempo no Rio, integrando-se no
setor da habitação popular, à onda de ecletismo histórico que assolou a cidade.
Também alcançou certo êxito em edifícios comerciais e industriais, cujas
fachadas não raro eram ornamentadas com abundante decoração naturalista ou por
grades e balcões de ferro forjado com intricados arabescos.
A moda do modern style não se limitou aos dois principais centros do
país. Alguns traços esparsos desse estilo podem ser encontrados em Salvador e
em Belo Horizonte. Apesar de ter sido construída na época de maior impulso do art
nouveau, nesta cidade apenas algumas casas, pertencentes a personalidades
locais (como João Pinheiro, governador do Estado de 1906 a 1908) adotaram a
nova moda, conservando, ao mesmo tempo, alguns traços tradicionais; o que
ocorria na maioria dos casos era apenas uma justaposição de alguns elementos
funcionais e, mais ainda, decorativos e construções de espírito diverso. Não se
tratava aliás de criações locais, mas sim de estruturas e de ornamentos de
ferro importados diretamente da Europa e depois sem qualquer alteração montados
na obra. A obra-prima é indiscutivelmente a magnífica escadaria metálica
instalada no Palácio da Liberdade, sede do poder executivo: o interesse que ela
apresenta é redobrado pois mostra o prestígio que tinha o ferro no campo das
artes aplicadas; nesse setor, e somente nele, eram reconhecidos as qualidades
estéticas do ferro, que o tornavam digno de figurar no lugar de honra de um
edifício oficial, cujo arquiteto - pelo contrário - era obrigado a obedecer a
um academicismo classicizante.
Contudo, a cidade brasileira mais atingida pelo art nouveau, além de São
Paulo e Rio de Janeiro, acha-se às margens do Amazonas. Trata-se de Belém,
capital do Pará, que, graças ao comércio da borracha, teve um desenvolvimento
fantástico, mas efêmero durante a primeira década do século. A riqueza
rapidamente acumulada por particulares reflete-se na construção de belas
residências ou de edifícios comerciais mais ou menos suntuosos, onde podem ser
encontrados vários traços moder style. Não há nada de extraordinário
nisso, uma vez que o período áureo da borracha, que fez a fortuna de Belém e de
Manaus, coincidiu com o grande prestígio internacional do art nouveau;
pelo contrário, teria sido estranho que essa clientela de novos-ricos, com
olhos e interesses voltados inteiramente para a Europa, não tivesse sido
seduzida pelo caráter de ostentação dessa moda. Os resultados, porém, foram
bastante medíocres. Mais ainda do que em São Paulo ou no Rio, a maioria dos
edifícios construídos era uma extraordinária miscelânea de estilos passado. A
Vila Bolonha, obra do engenheiro Francisco Bolonha, figura de destaque do art
nouveau em Belém, com sua pequena torre hexagonal vagamente medieval, o
pórtico em arcadas, a cornija sustentada por suportes que lembram mata-cães, o
térreo com ranhuras, a cobertura com mansardas, as janelas Sezession e,
nas salas de estar do primeiro andar, as varandas em projeção que lembram a
arquitetura do inglês Webb de fins do século passado são um exemplo típico
desse fato. Assim, só se pode falar de uma penetração superficial do modern
style nas margens do Amazonas, e não da implantação concreta de um
movimento original.
O art nouveau assumiu portanto no Brasil aspectos bem diferenciados
segundo as regiões e segundo a personalidade e a formação dos arquitetos que o
introduziram ou o adotaram. Existe, entretanto, um determinado número de pontos
comuns que devem ser ressaltados. Só raras vezes foi uma tentativa de renovação
da arquitetura, uma procura de um estilo característico de sua época; não teve
portanto a mesma significação profunda que teve na Europa. Longe de tentar
combater o ecletismo então reinante, integrou-se perfeitamente nele,
tornando-se essencialmente uma moda como as demais. Não houve uma ruptura, uma
incompatibilidade total com a imitação dos estilos do passado, mas uma curiosa
síntese de elementos tomados de empréstimo desses estilos, principalmente da
arte gótica, e de traços típicos do art nouveau. Nada de duradouro podia
surgir dessas preocupações quase sempre puramente formais, principalmente numa
época em que o gosto era tão instável. Enquanto que na Europa o modern style
foi um primeiro passo no sentido de uma arquitetura realmente contemporânea, no
Brasil ele não passou de mero episódio sem futuro: de fato, nesse país não se
pode estabelecer qualquer relação entre esses dois movimentos, separados por um
intervalo de no mínimo vinte anos, e tendo sido o primeiro decididamente
ignorado pelo segundo. A nova arquitetura brasileira não nasceu de uma lenta
maturação da arquitetura local - ela foi resultado mais uma vez de uma
importação pura simples do Velho Mundo. Contudo, logo superou o estágio da
aplicação mais ou menos servil de certas regras e princípios e encontrou um
caminho próprio. Isto deve-se indiscutivelmente ao nascimento de uma
personalidade artística genuinamente brasileira, cujo primeiro sintoma foi ainda
uma vez mais um estilo histórico: o neocolonial.
Arquitetura Contemporânea no Brasil
Yves Bruand
Ed. Perspectiva