No decorrer das últimas considerações uma observação se impôs a nós, a de que o caráter genérico das intenções está numa conexão tão íntima, como o da síntese de preenchimento, que a classe dos atos objetivantes pode ser definida justamente pelo caráter genérico, que se supõe conhecido, da síntese de preenchimento enquanto síntese identificante. Quando levamos adiante esse pensamento, surge a questão de saber se as diferenças específicas essenciais, dentro dessa classe de objetivações, também não podem ser determinadas por meio das diferenças correspondentes nos modos de preenchimento. As intenções objetivantes se decompõem, por uma divisão fundamental, em significativas e intuitivas. Tentamos dar-nos conta da diferença entre as duas espécies de atos.
Tendo tomado os atos de expressão como ponto de partida, consideramos as intenções signitivas, enquanto significações das expressões. Assim — deixando de lado, provisoriamente, a questão de saber se os mesmos atos que desempenham a função de doadores de sentido podem também aparecer fora da função de significação — essas intenções significativas têm em cada ocasião, um apoio intuitivo, exatamente no que a expressão tem de sensível, mas não é por isso que elas terão um conteúdo intuitivo, elas formam uma unidade com os atos intuitivos, mas só de um certo modo, diferindo deles todavia segundo sua espécie.
A diferença facilmente compreensível entre as intenções de expressão e as puramente intuitivas surge quando comparamos signos e imagens, uns com os outros.
Na maioria das vezes, o signo não tem nada em comum, quanto ao conteúdo, com o designado, ele pode designar igualmente tanto algo que lhe é heterogêneo como algo que lhe é homogêneo. A imagem, pelo contrário, se relaciona com a coisa pela semelhança; não havendo semelhança, não se pode mais falar em imagem. O signo, enquanto objeto, constitui-se para nós no ato do aparecer. Esse ato não é ainda um ato que designa, ele precisa, no sentido das nossas análises anteriores, ligar-se a uma nova intenção, a um novo modo de apreensão, por meio da qual é visado não o que aparece intuitivamente, mas algo novo, o objeto designado. Da mesma maneira, a imagem, um busto de mármore, por exemplo, é também uma coisa como qualquer outra; é só novo modo de apreender que faz dessa coisa uma imagem; agora, não é somente a coisa de mármore que aparece, mas ao mesmo tempo e sobre o fundamento dessa aparição, uma pessoa é visada por imagem.
As intenções que se prendem aos dois casos não são afixadas ao teor de aparição como rótulos externos; pelo contrário, elas se fundamentam essencialmente nele, de tal maneira, portanto, que o caráter da intenção fica por ele determinado. Do ponto de vista descritivo, estaríamos concebendo a situação erroneamente, se viéssemos a pensar que toda a diferença reside no fato de uma mesma intenção ligar-se ora à aparição de um objeto semelhante ao objeto visado, ora à aparição de um objeto que lhe é dessemelhante. Pois também o signo pode ser semelhante ao designado, e até mesmo perfeitamente semelhante. Mas nem por isso a representação por signo torna-se uma representação por imagem. Apreendemos diretamente a fotografia do signo A, como quando escrevemos A é uma letra latina, apesar da semelhança de imagem, não concebemos A como imagem, mas justamente como signo.
Portanto, o fato objetivo da semelhança entre o que aparece e o que é visado não determina nenhuma diferença. Não obstante, esse fato não é irrelevante no caso da representação por imagem. Isso se mostra na possibilidade de preenchimento; e, na verdade, foi apenas a lembrança desta possibilidade que nos fez recorrer aqui à semelhança 'objetiva'. A representação por imagem tem obviamente a seguinte peculiaridade sempre que ela é preenchida, seu objeto, que aparece como 'imagem', se identifica por semelhança com o objeto dado no ato preenchedor. Ao designarmos isso como uma peculiaridade da representação por imagem, já estamos dizendo que nesse caso o preenchimento do semelhante pelo semelhante determina internamente o caráter da síntese de preenchimento como sendo o caráter de uma síntese afigurativa. Se por outro lado, em consequência de uma semelhança casual entre o signo e o designado, surge um conhecimento de sua mútua semelhança, este conhecimento não pertence ao preenchimento da intenção signitiva - indepedentemente do fato de que esse conhecimento não é de modo algum da mesma espécie daquela consciência peculiar de identificação que faz com que o semelhante se relacione por recobrimento com o semelhante à maneira da imagem e da coisa. Pertence antes à essência de uma intenção significativa a peculiaridade de que, nela, o objeto fenomenal do ato intencionante 'nada tem que ver' com o do ato preenchedor (por exemplo, o nome e o denominado, na unidade realizada dos dois). Assim fica claro que, de fato, os modos de preenchimento descritivamente diversos, podem também inversamente chamar a atenção para a diversidade desse caráter e determiná-lo tal como uma definição.
Até agora só examinamos as diferenças entre intenções significativas e afigurativas. Se desprezarmos aqui algumas diferenças menos significativas dentro da esfera mais ampla dos atos afigurativos (demos preferência acima às representações por meio de imagens físicas, em vez de levar em conta também as representações da fantasia), restarão ainda as percepções.
Diante da afiguração, a percepção se caracteriza, como costumamos dizer, pelo fato de que nela aparece o 'próprio' objeto e não apenas o objeto 'em imagem'. Por meio disso reconhecemos imediatamente as diferenças características das sínteses de preenchimento. A afiguração se preenche pela síntese da identidade de coisa concreta, que se confirma por 'si própria', ao mostrar-se de diversos lados e sendo nisso continuamente uma só e a mesma coisa.
b) O sombreamento captativo e afigurado do objeto
No entanto, devemos levar em consideração a seguinte diferença: a percepção, enquanto pretende dar-nos o 'próprio' objeto, não pretende propriamente com isso ser uma mera intenção, mas antes um ato que pode oferecer preenchimento aos outros, sem que ele próprio precise ainda de um preenchimento qualquer. Na maioria dos casos, por exemplo, em todos os casos da percepção 'externa', isso não passa de uma mera pretensão. O objetivo não é efetivamente dado, isto é, ele não é plena e totalmente dado como aquele que ele mesmo é. Ele só aparece 'do lado frontal', 'sombreado e em escorço' etc. Enquanto várias das suas determinações são representadas por imagens no núcleo da percepção - pelo menos da maneira exemplificada por essas últimas expressões - as outras determinações não entram na percepção, nem sequer sob essa forma de afiguração; os componentes do reverso invisível, do interior etc. são na verdade subentendidos, co-visados, de uma maneira mais ou menos determinada. Eles são indicados simbolicamente pelo que aparece primariamente, sem que eles próprios sejam, de modo algum, ingredientes do teor intuitivo (captativo ou afigurado) da percepção. Ligada a isto está a possibilidade de uma multiplicidade ilimitada de percepções, de diferentes conteúdos, de um mesmo objeto. Se a percepção fosse sempre o que pretende ser, isto é, a apresentação efetiva e genuína do próprio objeto, para cada objeto só haveria uma única percepção, visto que a essência peculiar da percepção se esgotaria nessa apresentação.
Mas por outro lado, cabe observar que o objeto, tal como é em si - em si, no único sentido aqui razoável e em causa, sentido este que o preenchimento da intenção de percepção realizaria - não é um outro totalmente diferente daquele em cujos termos a percepção o realiza, ainda que imperfeitamente. Está, por assim dizer, no próprio sentido da percepção, o de ser a aparição do próprio objeto. Para voltar à esfera do fenomenológico, a percepção comum pode, portanto, ser composta de várias intenções, em parte puramente específicas da percepção, em partes meramente afigurativas e até mesmo signitivas: enquanto ato global ela apreende o próprio objeto, ainda que apenas ao modo de um sombreamento. Imaginemos que uma dada percepção seja posta em relação de preenchimento com a percepção adequada, isto é, com aquela que nos daria o próprio objeto, no sentido idealmente estrito e mais próprios; então poderemos dizer: a percepção intenciona o objeto de tal maneira que a síntese ideal de preenchimento teria o caráter de um recobrimento parcial do teor puramente captativo do ato intencionalmente com o teor puramente captativo do ato preenchedor, e, ao mesmo tempo, o caráter de um recobrimento pleno das intenções de percepção plenas, de ambos os lados. O teor 'puramente captativo' é, na percepção 'externa', aquilo que nos resta depois da abstração de todos os componentes meramente afigurativos e simbólicos; ele é, portanto, o conteúdo 'sentido' naquela apreensão puramente captativa que lhe pertence imediatamente, apreensão esta que dá a todas as suas partes e momentos o valor de sombreamento das próprias partes e dos próprios momentos correspondentes do objeto da percepção, conferindo assim ao conteúdo inteiro o caráter de uma 'imagem perceptiva', de um sombreamento captativo do objeto. No caso limite ideal da percepção adequada, esse sentido ou que apresenta o próprio objeto coincide com o objeto percebido. - Essa relação comum que pertence ao sentido de toda percepção, a relação ao próprio objeto em si, e, assim, ao ideal da adequação, também, se manifesta na co-pertinência fenomenológica de diversas percepções relativas ao mesmo objeto. Numa percepção, o objeto aparece deste lado, na outra, do outro lado, de uma vez perto, de outra vez longe etc. Apesar de tudo isso, em cada uma delas está 'aí' um único e mesmo objeto, em cada uma delas ele é intencionado em conformidade com o montante global daquilo como-o-que ele nos é conhecido e presente nessa percepção. Do ponto de vista fenomenológico, a isso corresponde a corrente contínua de preenchimento ou de identificação, na sequência contínua das percepções 'relativas ao mesmo objeto'. Aqui, cada uma delas é uma mistura de intenções preenchidas e não preenchidas. Às primeiras corresponde no objeto aquilo que dele é dado nessa percepção singular, como um sombreamento mais ou menos perfeitos;; às últimas, aquilo que dele ainda não é dado, aquilo que chegaria, portanto, à presença atual e preenchedora, em novas percepções. E todas as sínteses de preenchimento dessa espécie se distinguem por um cárater comum, precisamente enquanto são identificações de aparições do próprio objeto com outras aparições do mesmo objeto.
É imediatamente claro que distinções paralelas valem também para a representação afigurativa. Também ela produz em imagem o mesmo objeto ora deste, ora daquele lado; à síntese de diversas percepções, nas quais sempre o mesmo objeto vem a ser ele próprio apresentando, corresponde a síntese paralela de diversas afigurações, nas quais esse mesmo abjeto vem a ser apresentado por imagem. Aos variados sombreamentos captativos do objeto correspondem aqui os paralelos sombreamentos afigurativos e, no ideal da reprodução completa, o sombreamento coincidiria com a imagem completa. Como os atos afigurativos se preenchem, ora na conexão afigurativa, ora por meio de percepções correspondentes, é inegável que há uma diferença no caráter da síntese de preenchimento - a transição de imagem para imagem se caracteriza de outra maneira que a transição da imagem a própria coisa.
Essas análises, úteis também para a nossa investigação posterior, e que deverão ser ampliadas no próximo capítulo, nos instruem sobre a co-pertinência das percepções e das afigurações e sobre a sua posição comum às intenções signitivas. Distinguimos sempre o objeto visado - designado, afigurado, percebido - do conteúdo que é atualmente dado na aparição, sem contudo ser visado: por um lado, o conteúdo do signo, e por outro, o sombreamento afigurativo e captativo do objeto. Mas, ao passo que o signo e o designado 'nada têm que ver com o outro', entre os sombreamentos, afigurativos ou captativos, e a própria coisa, existem relações de co-pertinência, implicítas no sentido dessas palavras. E essas relações estão documentadas fenomenologicamente nas diferenças entre as intenções constituintes e não menos nas diferenças entre as sínteses de preenchimento.
Naturalmente, essa maneira de apresentar as coisas não prejudica nossa interpretação, segundo a qual todo o preenchimento é uma identificação. A intenção sempre se recobre com o ato que lhe dá o seu recheio, isto é, o objeto que nela é visado é o mesmo que aquele visado no ato do preenchedor. Porém, nossa comparação não se referia a esses objetos visados, mas ao signo e ao sombremento, em suas relações com os objetos visados e, respectivamente, àquilo que fenomelogicamente corresponde a essas relações.
No presente paragrafo nosso interesse foi dedicado em primeiro lugar às peculiaridades das sínteses de preenchimento; por meio delas, as diferenças entre os atos intuitivos e significativos foram caracterizadas de uma maneira meramente indireta. Só poderemos fazer uma caracterização direta no curso ulterior da investigação - no 26 - fundamentando-nos na análise das intenções consideradas de per si e sem levar em conta os possíveis preenchimento.
Edmund Husserl
Nova Cultura