A investigação referente à natureza dos sentimentos que deve ser evocados não nos leva até muito longe. O sentimento pertence à região obtusa, indeterminada do espírito, ou representa a forma desta região. Tudo o que se experiencia fica enfraquecido, velado, e permanece subjetivo. Por este motivo, as diferenças que existem entre os sentimentos são completamente abstratas, não correspondem as diferenças entre as coisas reais. Assim, por exemplo, há no medo, de que o rancor e a angústia são intensificações ou modificações quantitativas, um Ser ameaçado, de uma negação. Da reunião dos dois, do interesse e da negação, resulta o sentimento do medo. Mas essa relação é completamente abstrata e indeterminada; o conteúdo do sentimento como tal é puramente abstrato. Todos estes sentimentos podem ser experienciados nas mais diversas ocasiões. Encontramo-nos, portanto, perante formas completamente abstratas.
Outros sentimentos - a cólera, a piedade etc. - diferem uns dos outros pelo conteúdo que, no entanto, para cada um deles se mantém no estado de abstração. Como o cristão, cujo sentimento religioso se vai alimentar às mais altas origens, também o negro possui sentimento religioso; e enquanto nos limitamos ao sentimento, o conteúdo da religião fica completamente indeterminado. Emprenhando-nos, a propósito da arte, no estudo dos sentimentos, só encontraremos generalidades desprovidas de conteúdo. O conteúdo próprio da obra de arte tem de permanecer estranho a essas considerações, sob pena de não ser o que deve ser.
Dizer que toda a forma de sentimento possui um conteúdo é nada afirmar sobre a natureza essencial e preciosa do sentimento que continua num estado puramente subjetivo, num meio abstrato que diluí a coisa concreta. O ponto pricipal é o seguinte: o sentimento é subjetivo e a obra de arte deve possuir um caráter de universalidade e objetividade. Ao contemplá-la eu posso mergulhar nela até me esquecer de mim; mas há sempre, no sentimento, um aspecto particular, e por isso os homens são tão facilmente sensíveis. A obra de arte, como a religião, deve levar-nos ao esquecimento do particular enquanto o examinamos; se examinarmos o particular à luz do sentimento, consideraremos, não a própria coisa, mas nós mesmos e as nossas subjetivas particularidades. Quando a atenção se concentra nas particularidades do sujeito, o conseqüente exame da obra de arte é uma ocupação fastidiosa e desagradável.
A seguinte observação relaciona-se com o que acabamos de dizer: tem a arte um fim ,comum a muitas outras manifestações do espírito, que consiste em dirigir-se aos sentidos e em despertar e suscitar sentimentos. E, para maior precisão, acrescenta-se que o fim da arte é despertar em nós o sentimento do belo. O sentimento assumiria, pois, este aspecto particular, o do sentido do belo. Este sentido não seria inerente ao homem enquanto instintivo, como qualquer coisa que lhe fosse inseparável por natureza e adquirida com o nascimento, como, por exemplo, os órgãos, os olhos. Não, tratar-se-ia de um sentido que é preciso formar e que, uma vez formada, viria a consistir naquilo a que se chama gosto. Ter gosto é, pois, ter o sentimento, o sentido do belo; é uma apreensão que, sem sair do sentimento, passa por uma tal formação que descobre o belo imediatamente, qualquer que ele seja e onde quer que esteja. A teoria das belas-artes e das ciências do belo destina-se a formar o gosto, e tempo houve em que esteve muito em voga. Mas o gosto é um modo sensível de apreender o belo, adotando, para com ele, uma atitude sensível. Não iremos expor a maneira como estas teorias abstratas se propunham a formar o nosso gosto que, entretanto, permanecia exterior e unilateral. Se, na época em que prevaleceu, lhe faltavam, por um lado, princípios gerais, a crítica particular das obras de arte isoladas mais visava, por outro lado, a propiciar a formação do gosto em geral do que a estabelecer as bases de um juízo seguro e preciso (porque também os materiais lhe faltavam). Aquela formação ficou, por conseguinte, num estado impreciso e indeterminado. limitando-se a desenvolver, com o auxílio da reflexão, o sentimento do belo, de modo a que, como já dissemos, o descobrisse onde e como quer que se encontrasse.
Fala-se hoje menos do gosto porque, como meio de apreensão e de juízos imediatos, ele se mostrou incapaz de nos levar muito longe e de aprofundar o que quer que seja. Tudo exige um juízo em profundidade; o gosto, o sentimento, não perfura a superfície e contenta-se com reflexões abstratas. O gosto não vai além dos pormenores, a fim de que estes concordem com o sentimento, e repele a profundidade da impressão que o todo possa produzir. São os aspectos exteriores, secundários, acessórios, das coisas que importam ao gosto, e são-lhe suspeitos, porque repugnam ao seu amor pelas minudências, os grandes caracteres e as grandes paixões que o poeta nos descreve. Perante o gênio, o gosto recua e esvia-se.
Renunciou-se, pois, à tentativa de formar o gosto para adquirir um juízo fundado sobre a própria coisa e sobre os seus aspectos. E assim se chegou a uma fase mais adiantada, a do especialismo. O homem de gosto cedeu lugar ao especialista. Ora, o especialista pode, também, limitar-se ao aspecto puramente exterior, técnico, histórico, sem pressentir o que quer que seja da natureza profunda de uma obra de arte. Pode, até, atribuir mais valor ao aspecto histórico do que àquela profunda natureza. Mas o especialismo já supõe, pelo menos, certos conhecimentos que abrangem o conjunto da obra; implica a reflexão sobre uma obra de arte, enquanto o gosto se limita à contemplação puramente exterior. Necessariamente, uma obra artística oferece aspectos suscetíveis de interessar ao especialista: o significado histórico, os materiais de que foi feita, as múltiplas condições em que foi produzida; liga-se a um certo grau de formação técnica. A personalidade do artista inclui-se também entre estes aspectos da obra de arte. O estudo do especialista exerce-se sobre estes aspectos técnicos, sobre as condições históricas e sobre muitas outras circunstâncias exteriores. Aspecto todos eles que são indispensáveis a quem quiser conhecer e admirar uma obra de arte. O especialista presta, portanto, grandes serviços; sem que constitua um fim em si, é um momento necessário.
Todas são considerações que se podem formular quanto à aspecção sensível da obra de arte.
G. W. F Hegel
Ed. Nova Cultural