— Por meio muito simples. Sendo bela e agradável, já são duas condições para justificá-la como obra de arte. No início de nossa conversa já disse que toda imagem artística só se pode exteriorizar, isto é, transferir do pensamento para o mundo exterior, por um meio de expressão. E este meio de expressão que se chama cultura, só pode ser obtido por uma disciplina longa e penosa através dos anos. Por isso que o artista está presente em toda sua obra, porque esta, representa a sua cultura. Em conclusão, a obra de arte representa cultura, como toda boa obra em qualquer gênero, representa cultura correspondente a esse setor. Cultura é coisa evidente e não pode ser enganada nem mentida. Se a obra representa cultura, é obra de arte, se não, será um ornato qualquer.
— E como se pode conhecer se a obra de arte tem ou não cultura?
— Traduzindo o seu valor pelas dificuldades que apresenta para se realidade. Uma obra de arte que está ao alcance de todos realizar, sem nenhuma cultura especializada para aquele mister, não tem mérito artístico, não vale nada. Assim são as obras, cujas facilidades técnicas, podem ser obtidas de realizações espontâneas, casuais, ao alcance de todos.
— Os artistas da vanguarda, os chamados avançados (Escola de Paris e outros centros de cultura) insistem em dizer que já passaram por todos os graus de aprendizagem, por todos os processos de disciplina até alcançar a alta cultura, por isso chegaram ao abstrato, que lhe parece?
— Só seria de admirar, era que eles vivendo em Paris, não tivessem cultura. Não temos culpa que eles desçam da sua cultura para o artesanato e valham pelas obras que produzem.
Um matemático que soma duas parcelas com poucos algarismos, está operando no plano de um aluno de escola primária e não tem oportunidade de mostrar os seus altos conhecimentos. Com raciocínio elevado, embora, ele e o aluno chegam praticamente ao mesmo resultado requerido que é a soma.
Como já disse e repito, tudo que há demais belo na natureza são as imagens formais, figurativas. As imagens informais servem como complemento, como ambiente das formais. Isoladas nada significam. A propósito da diversidade de universos e mundos criados e imaginados pela vanguarda de artistas modernos, os chamados avançados, tenho a dizer que tudo que há de belo e útil no mundo, foi criado neste universo, neste mundo real e pela imaginação consciente com os pensamentos são, objetivos, subjetivos e a chamada inspiração, soprada pela musa dos eleitos. Depois deste mundo real de pensamentos sãos, conscientes, vem o mundo do subconscientes com os pensamentos doentios das neuroses e psicoses; por último, vem o mundo do inconsciente com as alucinações. É esta, a nossa constituição neuro-fisiológica, e não há como fugir.
E todas as nossas criações, em qualquer setor de atividade terão que refletir nossas possibilidades mentais.
Será que estes modernos avançados tenham a intenção de dirigir as suas criações a uma sociedade de mentalidade normal, de gente sã ou a esquizofrênicos e neuróticos?
O agrado atrai, o desagrado repele; o belo alegra, entusiasma e exalta; o feio entristece, deprime, acabrunha. Isso é o bastante para decidir da sorte dessas obras de extravagantes. Quando o observador não entende não gosta e não se agrada é porque não é obra de arte. A obra de arte é sempre inteligível, atraente, bela e agradável para qualquer grau de cultura, está visto, na proporção do seu entendimento.
Estética Desfigurada
Porciúncula de Moraes