— Bem compreendido o assunto, o caso é o seguinte: os governos para não passarem por ignorantes e ultrapassados, não só em relação ao seu povo mas em competição com os outros governos que cometem o mesmo erro, porque a política dos agitadores da arte moderna como a indústria e satisfazendo mais a interesses comerciais que artísticos, é feita de caráter internacional — os governos concorrem com o dinheiro mas atuam de modo indireto. Os chefes de governo cheios de problemas da mais alta magnitude, políticos e econômicos, passam para seus assessores diretos que nesse caso são os Ministros de Educação, a resolução dos problemas de Belas Artes. Os ministros sempre ocupados em todos os assuntos da cultura e nem sempre entendidos em belas artes, passam esse setor para os seus assessores imediatos e estes, decidem com os seus colaboradores que, por sua vez, estão coordenados não com as sociedades de arte ou com os artistas, mas com os negociantes de arte moderna. E assim, as mais das vezes, entra em primeiro lugar o interesse comercial desenvolvido em torno da arte moderna, o negócio.
Os concursos artísticos de assuntos de interesse público, já trazem no regulamento um parágrafo indispensável: arte moderna, como foi o caso do concurso do símbolo do IV Centenário, aprovando um desenho inexpressivo que nem sequer é original. O senador Vasconcelos Torres, voltando da Europa, estranhou a escolha, pois já o conhecia como marca de batatas numa cidade alemã.
Além disso, observei que está inspirado num cartaz da Feira de Milão. Desenho que mais parece um ferro de ferrar bois nas invernadas. A comissão oficializando tão inexpressivo desenho, deixou de atender inúmeros e justos protestos partidos de várias fontes, inclusive de jornais idôneos como o que abaixo transcrevo.
Passo Errado — Diário de Notícias — 25 de Fevereiro de 1964
"Ora, um símbolo — a definição da palavra já o diz — É uma forma ou conjunto de formas que, por seu aspecto físico, pelas relações visuais que estabelece com fatos, lugares, coisas, sintétiza graficamente a ideia desses fatos, lugares, pessoas ou coisas. Tem tal qualidade o símbolo escolhido para o IV Centenário do Rio de Janeiro?
Nossa opinião, a esse respeito concorda inteiramente a que vem de expressar o professor e pintor Prociúncula Morais, ao afirmar que a cruz não sugere o algarismo romano, representação consagrada pelo uso para essas enumerações. Símbolo sem nenhum caráter regional, tanto pode ser da cidade do Rio de Janeiro, como da China, da Coréia ou do Japão".
Estética Desfigurada
Porciúncula de Moraes