Sem dúvida seria possível dizer que a objeção prova apenas que a significação é insensível a tais diferenças entre percepções singulares; a significação residiria precisamente em algo comum que cada um dos múltiplos atos de percepção relativos a um mesmo objeto traz em si.
Contra isso observamos, entretanto, que a percepção pode não somente mudar, mas até desaparecer completamente, sem que a expressão deixe de ser significativa. O ouvinte compreende minhas palavras e a proposição inteira sem olhar para o jardim, ele pode emitir o mesmo juízo confiando na minha veracidade e sem ter a percepção. Talvez ele se sirva de uma certa imagem de fantasia, talvez essa também lhe falte; ou seja tão lacunar, tão inadequada que não possa valer sequer como uma réplica da aparição perceptiva feita segundo os traços 'expressos' no enunciado.
Mas, se na ausência da percepção restar ao enunciado ainda um sentido, e esse sentido for, além disso, o mesmo de antes, não poderemos admitir que a percepção seja o ato no qual se perfaz o sentido do enunciado de percepção, seu visar expressivo. Os atos unidos às palavras pronunciadas, que podem ser significativas de uma maneira puramente simbólica ou de uma maneira intuitiva, e que se fundamentam, nesse último caso, quer na mera fantasia, quer numa percepção realizadora, são por demais diferentes, do ponto de vista fenomenológico, para que possamos acreditar que o significar se dê ora nesses, ora naqueles atos; teremos de dar preferência a uma concepção que atribua essa função de significar a um ato sempre da mesma espécie, não tolhido pelas limitações da fantasia, e que, quando a expressão 'exprime' no sentido próprio da palavra, simplesmente se associe ao ato expresso.
Mas, apesar de tudo isso, é incontestável que nos 'juízos de percepção' o perceber está numa relação interna com o sentido do enunciado. Não é em vão que se diz: o enunciado exprime a percepção, ou melhor, exprime aquilo que é 'dado' na percepção. Uma mesma percepção pode servir de fundamento para diferentes enunciados, mas o sentido desses enunciados, como quer que possa variar, 'rege-se' entretanto pelo teor da aparição perceptiva; de uma vez são essas, de outra vez aquelas percepções parciais (ainda que sejam partes não independentes de percepções unitárias e plenas) que fornecem uma base especial ao juízo sem que por isso sejam propriamente os suportes de significação; como acabamos de aprender a partir da possibilidade da ausência de toda percepção.
Portanto, teremos de afirmar: esse 'exprimir' uma percepção (ou, numa maneira objetiva de falar: o percebido como tal) não compete às palavras pronunciadas, mas a certos atos expressivos; expressão significa, nesse contexto, uma expressão vivificada por seu sentido total, posta aqui numa certa relação com a percepção, que, por sua vez, é dita expressa justamente em virtude desta relação. Isso implica, ao mesmo tempo, que entre a percepção e as palavras pronunciadas está inserido ainda um ato (ou, conforme o caso, um complexo de atos). Digo um ato: pois a vivência da expressão, seja ou não acompanhada de percepção, tem uma relação intencional com algo objetal. É esse ato mediador que deverá servir propriamente de ato doador de sentido, ele é próprio à expressão que atua com pleno sentido, a título de seu componente essencial, fazendo com que o sentido seja sempre idêntico, quer a ele se associe uma percepção comprovante ou não. A investigação subsequente confirmará cada vez mais a viabilidade dessa concepção.
Não devemos prosseguir sem examinar uma dúvida natural. Nossa exposição parece exigir uma certa restrição, parece haver nela mais do que aquilo que podemos justificar plenamente. Mesmo que o perceber jamais constitua a significação plena de um enunciado fundado numa percepção, ele contribui, assim mesmo, com algo para a significação, justamente nos casos da classe que acabamos de examinar. Isso se vê mais claramente se modificarmos agora o nosso exemplo e, em vez de falar de uma maneira totalmente indeterminada de um melro, falamos 'deste'. 'Isto' é uma expressão essencialmente ocasional que só se torna plenamente significativa em vista das circunstâncias de sua exteriorização e, no caso presente, em vista da percepção efetuada. O objeto percebido, tal como é dado na percepção, é visado por meio do 'isto'. Além disso o tempo presente da forma gramatical do verbo exprime também uma relação ao presente atual, portanto, outra vez à percepção. Manifestamente, o mesmo vale para o exemplo não modificado; pois quem diz 'um' melro voou, decerto não quer dizer que um melro em geral voa, mas que um melro voa aqui e agora.
Sem dúvida, a significação intencionada não se prende às palavras pronunciadas, não faz parte das significações ligadas por elas de uma maneira rígida e geral. Ora, como não podemos abrir mão do fato de que o sentido do enunciado unitário reside no ato global do visar que eventualmente o fundamenta - quer ele se estampe plenamente em palavras, em virtude de suas significações gerais, quer isso não aconteça - teremos de admitir, ao que parece, que a percepção, trazendo para a intuição um estado de coisas que o enunciado exprime em forma de juízo. Sem dúvida, essa contribuição pode eventualmente ser prestada, de maneira essencialmente concordante, também por outros atos. Talvez o ouvinte não perceba o jardim, mas ele pode conhecê-lo, representá-lo intuitivamente, situar dentro dele o melro representado e o processo enunciado, e, seguindo a intenção do locutor, gerar por meio de meras imagens da fantasia uma compreensão que tenha o mesmo sentido.
Mas esse estado de coisas admite ainda uma segunda interpretação. Num certo sentido, cabe decerto dizer que a intuição contribui para a significação do enunciado do perceber: precisamente no sentido em que, sem o auxílio da intuição, a significação não poderia desdobrar-se em uma relação determinada à objetividade visada. Por outro lado, não quer dizer com isso que o próprio ato de intuição seja suporte de significação, ou que, no sentido próprio, traga contribuições para a significação acabada. As expressões essecialmente ocasionais têm, na verdade, uma significação que muda conforme o caso; mas, em toda essa mudança, há um resíduo comum que o distingue essa plurivocidade da plurivocidade de um equívoco casual. Quando intervém, a intuição faz com que se determine esse resíduo comum da significação que, enquanto abstrato, restara indeterminado. É que a intuição determina a sua direção para o objeto e, assim, a sua última diferença. Não se requer para isso que uma parte da própria significação resida na intuição.
Digo 'isto' e viso justamente o papel que está na minha frente. É à percepção que essa palavra deve sua relação a 'este' objeto. Mas não é na própria percepção que a significação reside. Quando digo 'isto', não me limito a perceber mas, fundada na percepção se constrói o ato do visar isto, um ato novo que por ele se rege e que dela depende quanto à sua diferença. Nesse e só nesse visar indicativo é que resíde a significação. Sem a percepção - ou um ato que funcione analogamente -, o indicar seria vazio, sem uma diferenciação determinada, e in concreto, absolutamente impossível. Pois, naturalmente, o pensamento indeterminado o locutor está indicando 'algo' — pensamento que pode surgir no ouvinte antes de reconhecer o objeto que queríamos assinalar como o 'isto' — não é o pensamento que nós mesmos realizamos na indicação atual: como se, no nosso caso, fosse apenas a representação determinada do assinalado que se associasse ainda. Não se deve confundir o caráter geral de um efetivo indicar, como tal, com a representação indeterminada de uma indicação qualquer.
A percepção realiza, portanto, a possibilidade de desdobramento do visar-isto, juntamente com a sua relação determinada ao objeto, por exemplo, a este papel diante dos meus olhos; mas, segundo nos parece, ela própria não constitui a significação nem sequer parcialmente. O caráter de ato do indicar, quando regido pelo intuir, recebe uma determinação de intenção que se preenche, nesse intuir, de acordo com um teor de componentes gerais que pode ser caracterizado como a essência intencional. Pois o visar indicativo é o mesmo, qualquer que seja a percepção que o fundamente, dentro da multiplicidade de percepções conexas, nas quais sempre aparece reconhecidamente o mesmo objeto. A significação do 'isto' permanece a mesma, até quando a percepção é substituída por um ato qualquer, dentro da multiplicidade de representações afigurativas que representam em imagem o mesmo objeto, de maneira reconhecidamente idêntica. Ela se altera, contudo, quando se fundamenta em intuições de outros círculos de percepção ou de afiguração. Visamos outra vez o 'isto', mas o caráter geral do visar que vigora aqui, a saber, o de ser uma alusão direta (isto é, sem nenhuma mediação atributiva) ao objeto, diferencia-se de outro modo, ele se impregna agora de uma intenção para um outro objeto, assim como o indicar físico se diferencia espacialmente quando a direção espacial é alterada.
O ponto de vista segundo o qual a percepção é um ato que determina a significação sem que no entanto a contenha é confirmado pela circunstância de que outras expressões essencialmente ocasionais, do mesmo tipo que 'isto' , são frequentemente usadas e compreendidas sem uma base intuitiva adequada. Uma intenção dirigida a um objeto, uma vez concebida a partir de uma intuição conveniente, pode ser repetida e recriada em consonância, sem a mediação de uma percepção ou de uma afiguração de alguma maneira lhe seja adequada.
De acordo com isso, as expressões essencialmente ocasionais seriam parentes dos nomes próprios, na medida em que esses últimos atuam na sua significação peculiar. Pois o nome próprio também nomeia 'diretamente' o objeto. Ele não o visa de uma maneira atribuitiva, como suporte destas ou daquelas características, mas visa de uma maneira atributiva, como suporte destas ou daquelas características, mas visa-o sem essa mediação 'conceitual', como aquele que ele 'próprio' é, tal como seria posto, diante dos nossos olhos, pela percepção. A significação do nome próprio reside portanto num visar-diretamente-este-objeto, visar que só é preenchido pela percepção e, de maneira 'provisória' (ilustrativa), pela afiguração, mas que não é idêntico a esses atos da intuição. É exatamente assim que a percepção dá o objeto ao 'isto' (quando este último se dirige a objetos de uma percepção possível); o visar-isto se preenche na percepção, mas não é ela própria. E, naturalmente, nos dois casos, a significação dessas expressões que nomeiam diretamente brota da intuição pela qual as intenções nominais voltam originariamente sua direção para o objeto indivídual. Em outros pontos, subsistem diferenças: o 'isto' é impregnado por um pensamento de indicação que introduz uma certa mediatez e complicação da maneira que já foi discutida anteriormente, e, portanto, uma certa forma que falta aos nomes próprios. Por outro lado, o nome próprio pertence ao seu objeto como uma denominação fixa. A esse pertencer constante corresponde também algo no modo de relação para com o objeto; isso se confirma pelo fato do conhecimento nominal da pessoa ou coisa assim chamada: conheço João como João, Berlin como Berlin. — É claro que nessa exposição não levamos em conta os nomes próprios que desempenham uma função de significação derivada. A partir do momento em que certos nomes próprios são construídos em direta ligação com objetos dados (fundados, portanto, em intuições doadoras), o conceito do chamar-se, construído na reflexão sobre o dar-nome-próprio, pode servir para dotar nomes próprios certos objetos — que não nos são dados, nem diretamente conhecidos, mas que só são caracterizados indiretamente, como suportes de certas características — ou ainda, para que se tome conhecimento de seus nomes próprios. Por exemplo, a capital da Espanha chama-se (tem nome próprio) Madri. Quem não conhece a 'própria' cidade de Madri adquire, assim, o conhecimento do seu nome e a possibilidade de aplicá-lo adequadamente, porém não ainda a significação que é própria à palavra Madri. Em vez do visar direto, que só pode ser suscitado pela intuição dessa cidade, a pessoa se serve de uma assinalação indireta desse visar, por meio de representações das características específicas e do conceito chamar-se-assim.
Se essas considerações merecem confiança, segue-se que não é bastante distinguir pura e simplesmente a percepção e a significação do enunciado de percepção, mas é preciso reconhecer que nenhuma parte dessa significação reside na própria percepção. É necessário separa completamente a percepção que dá o objeto, do enunciado que o pensa e o exprime por meio do juízo ou, conforme o caso, por meios de 'atos de pensar' entremeados na unidade do juízo, muito embora, no caso presente do juízo de percepção, estejam ambos na mais íntima comunhão, na relação do recobrimento, na relação da unidade de preenchimento.
É necessário mostrar detalhadamente que o mesmo resultado vale para todos os outros juízos de intuição, e, portanto, para os enunciados que 'exprimem', de modo análogo aos juízos de percepção, o conteúdo intuitivo de uma afiguração, de uma lembrança, de uma expectativa etc.
Adenado. Na exposição feita no parágrafo 26 da Investigação i, distinguimos, partindo da compreensão do ouvinte, a significação 'assinalada' das expressões essencialemte ocasionais e especialmente do 'isto'. No ouvinte, em cujo horizonte momentâneo talvez não esteja aquilo que se quer indicar, desperta em princípio apenas um pensamento geral indeterminado de algo estar sendo indicado; a determinação da indicação, e assim, a significação plena e própria do demonstrativo só se constitui para ele na representação complementar (que é intuitiva, quando se tratar de algo que deva ser mostrado intuitivamente). Para o locutor, esta sequência não existe; ela não precisa da representação que indica indeterminadamente, que funcionou para o ouvinte como 'assinalação'. O que a ele é dado não é a representação da indicação, mas a própria indicação, e o eo ipso, ela é uma indicação dirigida de uma maneira concretamente determinada; o locutor tem, desde o ínicio, a significação 'assinalada' e a tem numa imediata intenção representativa que se orienta pela intuição. Quando a coisa concreta não pode ser dada intuitivamente, como no caso em que nos remetemos a um teorema numa demonstração matemática, o pensamento conceitual correspondente assume a função da intuição: a intenção indicadora encontraria o seu preenchimento fundamentado na reprodução atual daquele pensamento passado. Em cada um dos casos, constatamos uma certa duplicidade na intenção indicadora: no primeiro caso, o caráter de indicação expressa a intenção objetal direta, de tal sorte que brota desse modo a indicação do objeto determinado intuído aqui e agora. O mesmo se dá no outro caso. Ainda que o pensamento conceitual anterior não seja, a rigor, atualmente realizado, permanece entretanto na lembrança uma intenção que lhe corresponde ou que se liga ao caráter de ato da indicação, fazendo com que sua direção seja determinada.
Portanto, quando falamos em significação assinaladora e significação assinalada, podemos ter em mente duas coisas. 1) Os dois pensamentos alternados que caracterizam a compreensão sucessiva do ouvinte: e, primeiro lugar, a representação indeterminada de um certo algo visado com o 'isto', em seguida a modificação produzida pela representação complementar, o ato da indicação dirigida de modo determinado. Nesse último ato residiria a significação assinalada, e no primeiro, a significação assinaladora. 2) Se nos ativermos à indicação acabada, orientada de modo determinado, que se dá desde o início no locutor, então nela própria poderemos distinguir novamente duas coisas: o caráter geral de indicação e aquilo que a determina, aquilo que lhe impõe a restrição de ser uma indicação disto aí. O primeiro por sua vez pode ser designado como significação inseparavelmente unitária, na medida em que, numa significação assinaladora, ou melhor, como aquilo que assinala, numa significação inseparavelmente unitária, na medida em que, em virtude da sua generalidade exprímivel, é o que pode ser apreendido imediatamente pelo ouvinte que lhe pode servir como as assinalações do visado. Quando digo 'isto', o ouvinte sabe, pelo menos, que algo está sendo indicado. (O mesmo se dá no caso das outras expressões essencialmente ocasionais. Quando digo 'aqui', trata-se de 'algo' no meu ambiente espacial mais próximo ou mais distante etc.) Por outro lado, o que essa expressão visa propriamente não reside nesse algo geral, e sim na intenção direta voltada para o objeto em questão. O que se tem em visto é ele e sua plenitude de conteúdo, e aquelas generalidades vazias não contribuem em nada, ou em quase nada, para a sua determinação. Nesse sentido, a intenção direta é a significação primária e assinalada.
A definição dada na exposição anterior repousa sobre essa segunda diferença. A distinção feita aqui, juntamente com a sua exposição mais precisa, deve ter contribuido para uma elucidação mais ampla dessa dificuldade.
Edmund Husserl
Os pensadores
Nova Cultural